Eduard toca...

Eduard toca Will Long

Em 2019, vasculhando por lojas online de discos, chamavam minha atenção algumas capas  estampadas apenas por desenhos de faces, feitos à mão, sem qualquer título. O primeiro play foi Time Has Come, e uma camada profunda e mínima entre House e Deep House invadiu os microfalantes do notebook. Foi o início da grande admiração que tenho pelo trabalho de William Thomas Long.

Will Long

Will Long é um músico, escritor e fotógrafo americano que mora em Tóquio, Japão. Curador do selo Two Acorns, desde 2005 produz música Ambient com o nome Celer, mas também sob outros pseudônimos e via outros projetos: Expos, Honda, Mogador, Rangefinder, CMKK, Environments, Hollywood Dream Trip, O.E.S. e Oh, Yoko.

Em 2016, Will Long dá início a uma série de títulos sob seu nome próprio, cujo primeiro suporte é nada menos que o Comatonse Recordings, selo dirigido por Terre Thaemlitz. No espaço de um mês, entre agosto e setembro daquele ano, o Comatonse lança sete vinis, dois duplos e um triplo, chamados Purple/Blue, Mint/Clay e Yellow/Ivory/Rust, seguidos de um CD, também duplo, que reúne todos os títulos sob o nome Long Trax. O projeto inclui overdubs de DJ Sprinkles, alias de Thaemlitz, para cada uma das faixas.

A saga continua em março de 2018, com mais três títulos em vinil pelo selo Smalltown Supersound, sediado em Oslo, Noruega, dedicado a nova formas de Jazz, Rock e música eletrônica. Surgem aí Royal Blue/Mustard, Maroon/Pink e Sallow/Pine, seguidos do segundo volume de Long Trax, em CD. Após este período, Will Long continua a série por conta própria, em versão apenas digital: Lime/Grey, Silver/Pearl, Gold/Lavender, Chartreuse, Turquoise e o terceiro volume de Long Trax. Todas as capas contêm desenhos de Tsuji Aiko, que completam este projeto ousado.

Uma sonoridade mínima

Assim como os conceitos de Techno e de House, o de Minimal admite diversas variantes e interpretações. Para mim, até 2010 Minimal se relacionava à sonoridade de Richie Hawtin e os títulos lançados pela M_nus. Mas se você pesquisar encontrará antes disso diversas insinuações, e dentro delas o que Marco Carola ou Adam Beyer fizeram no fim dos anos 90 também se considera Minimal. Mais tarde, após 2010, o gênero recebe nova roupagem, especialmente atrelado às produções romenas, marcadas por uma percussividade escura, que por vezes se confunde aos conceitos de Microhouse e Minimal House – que na minha cabeça funcionam pela identificação de groove além dessa percussidade escura. Então se forma uma espiral de negações. Para quem ouve o Minimal da M_nus, o Minimal anterior seria Techno; para quem ouve o romeno, o Minimal até 2010 é Tech House, e assim vai. Se puder, tente relevar a minha simplificação exagerada deste terreno altamente complexo da música.

Isso é relevante porque, se entendermos que o que Will Long faz nesta série de trabalhos é Minimal House, nada tem a ver com todas as ideias acima, ao mesmo tempo em que isso parece a melhor definição para este conjunto simples de bateria, sintetizador e samples vocais, que se repete e varia ao infinito entre todas as tracks que o compõem.

O mix

Bem, o mix inclui todas as tracks da série Long Trax. Por algum lapso, nunca toquei os discos de Long fora de casa, que são perfeitos para qualquer sessão warm e talvez até para outros momentos, quando você deseja colocar aquela colcha Deep no set, com pads longos e condução elementar. Apesar de muito semelhantes, não é fácil mixar as suas músicas porque a tonalidade dos synths facilmente entra em conflito quando sobrepostas e fica aquele desconforto entre médias frequências que nunca é legal. Eu lembro de uma conversa com Daniel Bell, em que ele dizia que os médios “engage people” – ou seja, é pelas frequências médias que rola uma comunicação especial com a música, quando as pessoas identificam elementos que lhes permitem entrar no fluxo musical, para além dos graves e agudos. É como se, pelos médios, a música se desenvolvesse, fosse adiante, para além da cozinha de baixo e bateria.

Nessa camada do espectro sonoro habitam os samples vocais da música de Will Long. São frases cuidadosamente escolhidas, “One of the lies that we tell ourselves is that we’re making progress”, “Should we pretend we have a colorblind society?”, “I just think it’s part of capitalism to promote racism”, de personas como H. Rap ​​Brown, Richard Pryor, Obama. Essas frases remontam ao envolvimento social da música de Terre Thaemlitz, que sempre conduziu suas produções em um horizonte para além da pista. A monotonia de Long recebe tons e elementos mais fortes nos overdubs de DJ Sprinkles. No Residenty Advisordois reviews analisando mais esse viés, que sabota o aspecto apenas estético da música.

Eu tenho estes trabalhos em vinil e há bastante tempo pensava em poder ouvi-los em sequência. Com vinil a simples audição se interrompe com as diversas trocas de lado, por vezes com apenas uma track em cada um deles. Este mix então tenta montar essa sequência, mesclando tonalidades que me pareceram mais confortáveis. A mixagem foi feita por breaks e não por sobreposição de kicks & claps.

Minha sugestão é que você dê o play enquanto faz outra coisa e deixe a música de Will Long, em sua repetição e diferença, preencher o ambiente. Vale a pena conhecer este que, para mim, é um dos trabalhos mais intrigantes de House já feitos.

Boa audição e até o próximo episódio.

Tracklist:

  1. Make It [Long Trax 3, Will Long Self-released, 2020]
  2. It’s Always the Same [Rose/Black, Will Long Self-released, 2020]
  3. You Know? [Royal Blue/Mustard; Smalltown Supersound, 2018]
  4. Whether Or Not [Long Trax 3, Will Long Self-released, 2020]
  5. Daylight and Dark (Sprinkles Overdub) [Yellow/Ivory/Rust, Comatonse Recordings, 2016]
  6. Do That [Rose/Black, Will Long Self-released, 2020]
  7. The Only Difference [Silver/Pearl, Will Long Self-released, 2020]
  8. Get In and Stay In (Sprinkles Overdub) [Mint/Clay, Comatonse Recordings, 2016]
  9. The Struggles, The Difficulties [Sallow/Pine; Smalltown Supersound, 2018]
  10. Chartreuse (We Have To Find Some Way) [Chartreuse, Will Long Self-released, 2020]
  11. You Have To Understand [Long Trax 3, Will Long Self-released, 2020]
  12. Better Realize [Long Trax 3, Will Long Self-released, 2020]
  13. That Dream [Gold/Lavender, Will Long Self-released, 2020]
  14. Daylight and Dark [Yellow/Ivory/Rust, Comatonse Recordings, 2016]
  15. Make It That Way [Lime/Grey, Will Long Self-released, 2019]
  16. Turquoise [Turquoise, Will Long Self-released, 2021]
  17. Chumps (Sprinkles Overdub) [Purple/Blue, Comatonse Recordings, 2016]
  18. That’s What They Understand [Yellow/Ivory/Rust, Comatonse Recordings, 2016]
  19. Stand Up For Me [Long Trax 3, Will Long Self-released, 2020]
  20. Chumps [Purple/Blue, Comatonse Recordings, 2016]
  21. That’s What They Understand (Sprinkles Overdub) [Yellow/Ivory/Rust, Comatonse Recordings, 2016]
  22. Pay It No Mind [Silver/Pearl, Will Long Self-released, 2020]
  23. We Tend To Forget [Maroon/Pink; Smalltown Supersound, 2018]
  24. That’s The Way It Goes [Maroon/Pink; Smalltown Supersound, 2018]
  25. It Can’t Be Done, It Can’t Be Done, It Can’t Be Done [Long Trax 3, Will Long Self-released, 2020]
  26. Nothing’s Changed [Royal Blue/Mustard; Smalltown Supersound, 2018]
  27. You Should Recognize [Lime/Grey, Will Long Self-released, 2019]
  28. Time Has Come [Purple/Blue, Comatonse Recordings, 2016]
  29. Time Has Come (Sprinkles Overdub) [Purple/Blue, Comatonse Recordings, 2016]
  30. No More [Sallow/Pine; Smalltown Supersound, 2018]
  31. That’s Enough! [Gold/Lavender, Will Long Self-released, 2020]
  32. Under-Currents [Mint/Clay, Comatonse Recordings, 2016]
  33. Get In and Stay In [Mint/Clay, Comatonse Recordings, 2016]
  34. Pigs [Yellow/Ivory/Rust, Comatonse Recordings, 2016]
  35. Pigs (Sprinkles Overdub) [Yellow/Ivory/Rust, Comatonse Recordings, 2016]
  36. Under-Currents (Sprinkles Overdub) [Mint/Clay, Comatonse Recordings, 2016]

Eduard Marquardt é DJ e professor universitário. Residente do núcleo TROOP desde 2014. Owner da The_Smoking_Cat K7Studio. 

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A música conecta.

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